quarta-feira, 2 de julho de 2014

SUSTENTO E LUCRO

(O Culpado é o Mordomo!)
Há alguns dias, em um debate na Internet, me deparei com várias pessoas discutindo se é correto um pastor ganha altos salários, andar de carro importado, morar em mansão, ostentar riqueza etc — discussão mais que esperada após o pastor presidente de uma denominação evangélica publicar a faixa salarial dos pastores de sua igreja. 
Não participei do tal debate, mas procurei ler as postagens, contrárias e favoráveis, e pesquisar melhor em outras fontes para poder estabelecer minha posição acerca do assunto.

É evidente que não é pecado o crente ser rico, e muito menos o pastor! A riqueza nos tempos do AT era um dos sinais de bênção de Deus, e mesmo em nossos dias é buscada por muitos no intuito de se ter no mínimo uma vida com qualidade e dignidade. Mas é preciso que observemos a fonte desta riqueza. Aquele que enriqueceu com o seu trabalho ou após receber alguma herança não peca, desde que não ponha seu coração nas riquezas, não permita que o dinheiro o domine e nem deixe que o poder financeiro o afaste de Deus e dos caminhos do Evangelho. Alguns no meio evangélico afirmam que as riquezas adquiridas através de prêmios de loteria não são espiritualmente lícitas, pois Deus nos ordenou que ganhássemos o pão com o suor do rosto, ou seja, através do nosso trabalho árduo. Mas isto é assunto para outra ocasião. O fato é que, legalmente falando, estas são as três formas mais comuns de se adquirir riqueza por meios lícitos.

De uma forma ou de outra, somos unânimes em reconhecer que é completamente reprovável enriquecer às custas alheias, seja através da exploração, escravidão, engano, estelionato, fraude, subtração (roubo ou furto), apropriação indébita, corrupção, pirataria ou através de outras práticas ilícitas previstas em lei. Mas assim como é questionável e reprovável o enriquecimento às custas alheias em todos os expedientes citados acima, o que dizer em relação aos que constituem fortuna às custas do ministério, da igreja, dos dízimos e ofertas das ovelhas que o Senhor lhe confiou?

Compreendemos e aceitamos que o desempenho de algum ministério na igreja pode até ser fonte de sustento do obreiro, e muitos obtêm tal sustento através do trabalho sério que desempenham na obra, o que é perfeitamente justo. O apóstolo Paulo em suas epístolas é ferrenho defensor da justa remuneração aos obreiros, e escrevendo a Timóteo admoesta-nos, invocando as Escrituras, que “os obreiros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicado salário, porque diz a Escritura: não atarás a boca do boi que debulha, e: digno é o obreiro de seu salário” (1 Tm 5:17-18).

Qual o obreiro que trabalha para a igreja em tempo integral e não mereça receber prebendas por este trabalho, que ao menos lhe custeiem os gastos com transporte, alimentação, vestuário, moradia digna etc, que seriam devidamente custeados por um emprego secular? Uma vez que o obreiro abriu mão de trabalho secular para se dedicar integralmente à obra, é justo que tais custeios lhe sejam supridos pela Igreja. Contudo, analisando os princípios existentes nas Escrituras, entendemos que o ministério pode ser fonte de sustento do obreiro, mas jamais fonte de lucro. E há uma diferença abissal entre uma coisa e outra. O sustento visa satisfazer as necessidades básicas e naturais do homem, ao passo que o lucro visa o enriquecimento pessoal, a aquisição de bens materiais supérfluos, a ostentação da riqueza. Os obreiros do Século XXI estão convencidos e tentam convencer a todos que o ministério que lhes foi confiado por Deus é, na verdade, fonte de lucro pessoal, mas não convencem aqueles que estão vigilantes nos princípios da Palavra.

Paulo nos alerta acerca de “homens cuja mente é pervertida e, privados da verdade, supõem que a piedade é fonte de lucro...” (1 Tm 6:5). Observe-se que o apóstolo, defensor de uma remuneração justa àqueles que servem ao Senhor na igreja, posiciona-se contrário ao lucro por meio da obra de Deus. Há muitos obreiros que pensam que o ministério que Deus lhes deu é a fórmula mágica para seu futuro enriquecimento. Muitos abrem igrejas no afã de não precisarem trabalhar secularmente, mas terem sustento e riqueza por meio desta obra. Líderes de ministério, pregadores ou cantores passam a mercadejar o dom que lhes foi dado (e que não é seu, mas de Deus!), esquecendo-se de que uma das primeiras orientações que Jesus deu a seus discípulos, ao enviá-los a pregar, foi “de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10:8). Pregadores e conferencistas “cristãos” cobram fortunas para pregar em igrejas e eventos; cantores e bandas que outrora imploravam para cantar em certos eventos de graça ou em troca de valores irrisórios, agora só o fazem recebendo um gordo cachê... Entenda-se que não me posiciono contrário a uma remuneração aos pregadores ou aos músicos, e sim contra os cachês exagerados que são cobrados, e as exigências esdrúxulas e anticristãs que são feitas..

O apóstolo continua seu ensino: “De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo, porém, o sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Porque os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas...” (1 Tm 6:6-11).

CONTENTAMENTO! Esta é a palavra chave! E Paulo deixa claro que este contentamento diz respeito a bens materiais, explicando que devemos estar felizes quando obtemos o sustento do pão diário e das vestes, ou seja, a provisão do básico para uma vida digna. É interessante observar que o grande apóstolo se coloca no contexto do contentamento, ao dizer “estejamos contentes”. Que preciosa lição vinda do homem que ainda no 1º Século revolucionou — sem Bíblia, sem literaturas, sem tevê, sem internet, sem veículos rápidos, sem telefone, sem celular, sem templos, sem equipamentos de som, sem eletricidade, sem dinheiro — a Ásia e a Europa com uma obra missionária sem precedentes mesmo em nossos dias (At 21:27-28, 24:5)! Considerando o “conjunto da obra” do apóstolo, só podemos compará-lo, guardando as devidas proporções, com os “grandes” fundadores de igrejas dos nossos dias, com a grande diferença que ele fez muito mais que todos, sempre foi pobre, trabalhava secularmente para não ser pesado às igrejas (1 Ts 2:9; At 18:1-3), suportava ferrenhas e crueis perseguições, se contentava com o sustento cotidiano e não almejava riquezas ou ostentação, enquanto a franca maioria, quase a totalidade, dos “paulos” modernos são ricos, ostensivos, julgam-se intocáveis, recusam as perseguições e são cada dia mais sedentos por riqueza. Qual será a grande dificuldade destes últimos para compreenderem o princípio cristão da piedade com contentamento? Por que não se contentam com uma vida digna, com boa casa, bom carro, bom padrão de vida, mas sem ostentação? Por que não se espelham no grande apóstolo dos gentios, como ele mesmo nos orientou a fazer (1 Co 11:1)?

Mas você deve estar se perguntando: o que tem a ver o assunto deste artigo com o seu subtítulo, “o culpado é o mordomo”?

Você se lembra dos antigos filmes de suspense e mistério, onde ocorria um assassinato e no final se descobria que o culpado sempre era o mordomo da família? A trama ficou tão manjada que todos já sabiam de antemão o final do filme... Pois bem: isto de certa forma se aplica ao nosso tema. Vejamos como:

No Evangelho de Lucas, falando diretamente aos doze, Jesus propõe uma parábola acerca de um mordomo (empregado-mor, colocado sobre os demais empregados da casa) a quem foi entregue a responsabilidade de cuidar dos criados durante a ausência do seu Senhor, dando-lhes a alimentação cotidiana — um tipo perfeito dos obreiros que o Senhor coloca à frente de Seu rebanho. Em dado momento, prevendo a demora do seu Senhor e visando tirar vantagem em relação a esta demora, o mordomo começa a “espancar os criados e criadas, e a comer, e a beber, e a embriagar-se” (Lc 12:35-48). Trata-se de um desvio de conduta de alguém que passou a usar em benefício próprio os recursos que lhe foram confiados para, com uma administração adequada, dar sustento aos seus conservos. É assustadora a semelhança entre o mordomo da parábola e muitos pastores da atualidade que vêm enriquecendo a olhos vistos graças às ovelhas de Deus (Ez 34:1ss)! Aqueles que deveriam administrar fielmente os bens do Senhor em favor das ovelhas, para que estas não passem necessidades, usufruem destes bens e enriquecem ilicitamente, crendo piamente que estão não somente fazendo a vontade de Deus, mas também certos da imunidade em qualquer prestação futura de contas ao rígido e justo Senhor. Basta-nos, porém, ler toda a parábola para entendermos que o dia de prestação de contas chegará, e o destino do mau servo é tenebroso.

É fato inegável que muitos pastores enriqueceram no ministério. Não esperem a citação de nomes aqui, mas a correlação será fácil, pois com certeza tanto eu como você conhecemos muitos! Alguns, ao ingressarem na obra, moravam em uma casa modesta (muitas vezes alugada), dirigiam um carro simples (quando o tinham) e levavam uma vida simplória, cheia de privações. Após o crescimento da obra que o Senhor pôs em suas mãos, passaram a dirigir carros importados do último modelo, morar em mansões ou em luxuosos apartamentos à beira mar, adquirir helicópteros e jatinhos, comprar propriedades no Brasil e no exterior e desfrutar de uma vida regalada. Apresentam justificativas furadas para toda esta regalia, do tipo “o homem de Deus deve desfrutar do melhor desta terra”, ou “isto foi adquirido para melhor servirmos à obra” etc. Muitos são investigados pela justiça comum por causa da sua evolução patrimonial, e então passam a se denominar “perseguidos por causa do ministério”. Observe-se que muitos nem possuem empregos seculares que justifiquem tal enriquecimento, já que a grande maioria deles se dedica exclusivamente à obra...

Em momento algum desfrutar das benesses que o dinheiro proporciona constitui-se em pecado para um crente ou para um obreiro, desde que ele as desfrute com o uso do SEU PRÓPRIO dinheiro, adquirido por meio lícito e moral. Eu posso trabalhar, prosperar, enriquecer e gastar o meu dinheiro em carros importados, viagens, roupas caras, mansões, iates e o que mais me der na telha. O dinheiro é meu, eu gasto da forma que eu quero! Mas não posso fazer isso com o dinheiro que pertence ao Reino de Deus, administrando-o incorretamente como se não tivesse que prestar contas um dia. 

É perfeitamente possível conciliar a vida ministerial com o emprego secular. O apóstolo Paulo fazia assim. Conheço muitos pastores que têm seus empregos ou empreendimentos, que não interferem em sua vida sacerdotal. Eles andam em excelentes carros, moram em casas confortáveis e têm uma vida boa graças a seus rendimentos obtidos nos empreendimentos seculares. Alguns, mais nobres, ganham tão bem secularmente que abrem mão de qualquer remuneração da igreja, ou o fazem porque são conscientes de que o caixa da igreja seria onerado se lhes fosse destinada qualquer quantia, e se satisfazem com o que já ganham em seus empregos ou negócios. Não questionamos a boa vida quando esta é patrocinada pelos próprios buon-vivants, mas questionamos os que usufruem da mesma boa vida às custas da igreja!

O pastor é o administrador da igreja, e tem em suas mãos o poder de dispor das suas finanças. O problema é como ele as administra: em benefício da igreja (principalmente dos mais pobres) ou em benefício próprio, disponibilizando a si mesmo um excelente salário e generosas prebendas, muito acima das suas reais necessidades, além da possibilidade de usufruto inescrupuloso dos bens da igreja. Isto está certo?

Os doze apóstolos também eram administradores de muito dinheiro. Os primeiros cristãos vendiam suas propriedades e depositavam tudo, altas quantias, aos seus pés, que eram administradas com tanta responsabilidade e lisura que o texto sagrado afirma que nenhum irmão pobre tinha fome ou padecia necessidades (At 4:32-37). E olha que não se tratava de uma igrejinha de cem ou duzentos membros, mas de uma comunidade de milhares de membros, considerando-se apenas o relato das primeiras conversões do livro de Atos! Nos dias de hoje, contudo, embora muitas vezes o caixa da igreja esteja muito bem provido, os administradores se preocupam com tudo, exceto com o sustento dos irmãos menos favorecidos. Impérios eclesiásticos são erguidos, templos suntuosos são construídos ou reformados, equipamentos caros são adquiridos, veículos importados são comprados para o usufruto de pastores e obreiros, que ainda são esplendidamente remunerados, enquanto muitas pessoas na igreja passam privações e necessidades, têm seus serviços básicos, como água e energia elétrica, suspensos etc. Parece que este cuidado com as coisas e descuido com as pessoas não era a prioridade da igreja primitiva... Todos estes gastos, embora devidamente justificados e documentados, são legais de direito mas imorais e amorais de fato. Constituem-se em prioridades equivocadas, já que a Escritura demonstra que o cuidado que deve imperar na igreja é o sustento dos irmãos pobres. 

A administração incorreta não significa que o administrador esteja roubando. Nem sempre. Entendo que muitos enriquecem sem nunca terem roubado um único centavo, mas quando aceitam valores salariais ou prebendas que não condizem com seu trabalho na obra, ou quando os valores recebidos são muito superiores às suas reais necessidades e chegam a ser uma afronta aos mais pobres, por mais que estes valores não sejam ilegais são imorais e amorais! Ademais, quando adquire-se um bem, mesmo que no nome da Igreja, e passa-se a usufruir do mesmo inescrupulosamente (como casas, veículos, etc), também se está cometendo um ato ilícito. 

O bom senso também deve ser considerado! Como eu posso ser pastor de uma igreja onde a grande maioria de seus membros é desempregada, sub-empregada ou passa sérias privações financeiras, e receber um salário exorbitante, muito acima dos padrões salariais dos membros? Onde está a minha consciência quando eu ando de carro zero importado, custeado e abastecido pela igreja, e a franca maioria das minhas ovelhas anda de ônibus lotado ou a pé? Cadê o bom senso e a piedade quando eu moro em uma mansão ou em uma cobertura à beira-mar, patrimônios da igreja adquiridos com o dinheiro dos fiéis, ou alugados e custeados pela igreja, enquanto as ovelhas não têm um teto digno? Onde está a piedade com contentamento na minha vida??

Não sou contra, repito, que se pague um bom salário ao pastor, sempre que o caixa da igreja o permita. Sou plenamente a favor de que o obreiro tenha seu sustento garantido, dentro da realidade financeira da igreja, dos princípios do bom senso e de conformidade com as necessidades do obreiro. Sou a favor de um bom salário que além de lhe satisfazer as necessidades ainda lhe conceda folga financeira para certos mimos, como financiar-lhe a casa própria e/ou um veículo melhor, adquirir algum bem para sua casa como bons móveis e eletrodomésticos, permita-lhe uma viagem de férias com a sua família etc. O que disso passar não se trata de sustento, mas de lucro inescrupuloso, de perdularismo e de irresponsabilidade na administração dos bens do Reino de Deus. 

Sou contra o enriquecimento às custas da igreja! Sou contra a ostentação! Sou contra salários milionários, prebendas que são verdadeiras fortunas, uma afronta aos mais pobres, uma ostentação anticristã. Todos estes expedientes são formas de enriquecimento ilícito, que nem sempre encontram espaço punitivo na lei, mas também não encontram respaldo nem nas Escrituras e nem nos mais primários padrões de bom senso! Não é ilegal, mas é imoral e amoral. Quer sustento? Sirva a Deus fielmente na igreja, e a igreja assuma o compromisso sério com a provisão de suas necessidades básicas. Quer enriquecer, luxar, ostentar? Vá trabalhar!

Paulo em certo momento combate contra os “sanguessugas” que invadiram a igreja travestidos de irmãos, mas que só queriam sustento sem compromisso (2 Ts 3:6-12). A orientação foi clara: “se alguém não quiser trabalhar, não coma, também” (v. 10). Se Paulo orienta a igreja a ser criteriosa com a distribuição de comida, como a igreja não deveria também ser criteriosa com a distribuição financeira a seus obreiros?

E o fato de Deus prometer que comeremos o melhor desta terra não justifica e nem embasa tais práticas. Analise-se o contexto da Escritura, e veremos que não se trata de UM se regalando às custas de MUITOS. Deus quer abençoar a todos, e não apenas aos pastores, obreiros e levitas. Quer enriquecer? Quer andar de ferrari e morar em mansão? É lícito! Vá trabalhar, e adquira-os com o SEU dinheiro! E aprenda a administrar os recursos do Senhor com honestidade, lisura, seriedade e temor. Isto é para o seu próprio bem, caro mordomo! Ou no final do filme (Mt 7:21-23), veremos quem é o culpado!

EM TEMPO: para compreender mais o que significa "contentamento", leia o artigo FELIZ POR NADA, publicado na GENIZAH.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

NÃO MALTRATEIS OS MEUS PROFETAS

Resposta ao Pr. Silas Malafaia, diante de seu desafio aos blogueiros em 19/05/2012


Cansei de textos fora de seu contexto! Cansei de ouvir frases do calibre de “não toqueis nos meus ungidos” (Sl 105:15a) mal colocadas, usadas não para a glória de Deus, mas para a impunidade do homem. Gostaria de falar um pouco sobre a parte “b” do versículo, “e não maltrateis os meus profetas”. A parrte "a" já está por demais manjada, embora quase sempre seja tratada de forma incorreta e antibíblica.

Quem são estes profetas citados na parte “b”? Seria uma figura poética de repetição, muito usada na literatura hebraica, ou seja, seriam os mesmos ungidos citados na primeira parte do texto? Ou seriam outrras pessoas?

A priori, quando utilizado para proveito de “ungidos” e “profetas” que se arvoram contra a Palavra de Deus, ultrapassando o que está escrito, este texto é inócuo. Como bem frisou o pr. Ciro Zibordi em seu blog, tratando sobre aquilo que eu chamo de “teologia da intocabilidade”, o Salmo 105:15 e 1 Coríntios 4:6 andam sempre juntos e concordantes. Sempre!

Eu gostaria, sem me permitem, de apresentar alguns destes profetas que Deus admoesta que não sejam maltratados (mas que, infelizmente, nem sempre acontece assim):
E o Senhor enviou Natã a Davi; e ele disse-lhe: Havia, numa cidade, dois homens, um rico e o outro pobre. O rico tinha muitíssimas ovelhas e vacas; Mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; e ela tinha crescido com ele e com seus filhos, igualmente; do seu bocado comia, e do seu copo bebia, e dormia em seu regaço, e a tinha como filha. E, vindo ao homem rico um viajante, deixou este de tomar das suas ovelhas e das suas vacas, para guisar para o viajante que viera a ele; e tomou a cordeira do homem pobre, e a preparou para o homem que viera a ele. Então o furor de Davi se acendeu, em grande maneira, contra aquele homem, e disse a Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso. E pela cordeira tornará a dar o quadruplicado, porque fez tal coisa, e porque não se compadeceu. Então disse Natã a Davi: Tu és este homem.... A Urias, o heteu, feriste à espada, e a sua mulher tomaste por tua mulher; e a ele mataste, com a espada dos filhos de Amon: Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste, e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para que te seja por mulher. Assim diz o Senhor: Eis que suscitarei, da tua mesma casa, o mal sobre ti, e tomarei das tuas mulheres, perante os teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres, perante este sol. Porque tu o fizeste em oculto, mas eu farei este negócio perante todo o Israel e perante o sol. Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor” (2 Sm 121-13).
E sucedeu que, depois que Amazias veio da matança dos idumeus, trouxe consigo os deuses dos filhos de Seir, tomou-os por seus deuses, e prostrou-se diante deles, e queimou-lhes incenso. Então a ira do Senhor se acendeu contra Amazias: e mandou-lhe um profeta que lhe disse: Por que buscaste deuses do povo que a seu povo não livraram da tua mão? E sucedeu que, falando-lhe ele, lhe respondeu Amazias: Puseram-te por conselheiro do rei? Cala-te! Por que te feririam? Então o profeta parou, e disse: Bem vejo eu que já o Senhor deliberou destruir-te; porquanto fizeste isto, e não deste ouvidos a meu conselho”. (2 Cr 25:14-16).
Tinha, pois, Josafá riquezas e glória em abundância: e aparentou-se com Acabe. E, ao cabo de alguns anos, foi ter com Acabe, a Samaria: e Acabe matou ovelhas e bois em abundância, para ele e para o povo que vinha com ele: e o persuadiu a subir com ele a Ramote-gileade. Porque Acabe, rei de Israel, disse a Josafá, rei de Judá; Irás tu comigo a Ramote-gileade? E ele lhe disse: Como tu és, serei eu; e o meu povo, como o teu povo; seremos contigo nesta guerra. Disse, mais, Josafá ao rei de Israel: Consulta hoje, peço-te, a palavra do Senhor. Então o rei de Israel ajuntou os profetas, quatrocentos homens, e disse-lhes: Iremos à guerra contra Ramote-gileade, ou deixá-la-ei? E eles disseram: Sobe; porque Deus a dará na mão do rei. Disse, porém, Josafá: Não há ainda aqui profeta algum do Senhor, para que o consultemos? Então o rei de Israel disse a Josafá: Ainda há um homem por quem podemos consultar ao Senhor; porém, eu o aborreço; porque nunca profetiza de mim bem, senão sempre mal; este é Mica, filho de Imla. E disse Josafá: Não fale o rei assim. Então chamou o rei de Israel um eunuco, e disse: Traze aqui, depressa, a Mica, filho de Imla. E o rei de Israel e Josafá, rei de Judá, estavam assentados, cada um no seu trono, vestidos com as suas vestiduras, e estavam assentados na praça, à entrada da porta de Samaria, e todos os profetas profetizavam na sua presença. E Zedequias, filho de Quenaana, fez para si uns chifres de ferro, e disse: Assim diz o Senhor: Com estes ferirás aos siros, até de todo os consumires. E todos os profetas profetizavam o mesmo, dizendo: Sobe a Ramote-gileade, e prosperarás; porque o Senhor a dará na mão do rei. E o mensageiro, que foi chamar a Mica, lhe falou, dizendo: Eis que as palavras dos profetas, a uma boca, são boas para com o rei: seja, pois, também, a tua palavra, como a de um deles, e fala o que é bom. Porém Mica disse: Vive o Senhor, que, o que meu Deus me disser, isso falarei... Então disse ele: Vi a todo o Israel disperso pelos montes, como ovelhas que não têm pastor: e disse o Senhor: Estes não têm senhor; torne cada um, em paz, para sua casa. Então o rei de Israel disse a Josafá: Não te disse eu que este não profetizaria de mim bem, porém mal? ...   Então Zedequias, filho de Quenaana, se chegou, e feriu a Mica no queixo, e disse: Por que caminho passou de mim o Espírito do Senhor para falar a ti? E disse Mica: Eis que o verás, naquele dia, quando andares de câmara em câmara para te esconderes. Então disse o rei de Israel: Tomai a Mica, e tornai a levá-lo a Amon, o governador da cidade, e a Joás, filho do rei. E direis: Assim diz o rei: Metei este homem na casa do cárcere; e sustentai-o com pão de angústia e com água de angústia, até que eu volte em paz. E disse Mica: Se é que tornares em paz, o Senhor não tem falado por mim.” (2 Cr 18:1-27).

Dá para enxergar três profetas e suas mensagens duras, mas o que sobressai são três reações diferentes da parte dos "destinatários ungidos". Davi reconhece seu erro. Amazias não reconhece, e ameaça o profeta. Acabe não reconhece, permite que o profeta seja agredido fisicamente e em seguida pune severamente o mensageiro de Deus.

Deu para compreender quem são estes profetas? São profetas mesmo! São pessoas tão ungidas quanto os "ungidos", que a mando de Deus se dirigem aos "ungidos" para repreendê-los quando eles tomarem rumos contrários à Sua vontade ou à Sua Palavra, na esperança de que, confrontados com a Palavra de Deus, eles se arrependam e voltem aos princípios simples e sublimes das Escrituras. Nem sempre eles se dão bem... Mica que o diga...

É fato que os reis de Israel, ou contextualizando aos dias de hoje, aqueles que exercem liderança sobre o povo de Deus (no caso atual, os pastores) são ungidos de Deus. Davi não ousou tocar em Saul no aspecto físico, pois como rei de Israel ele era inegavelmente ungido de Deus. Contudo, naquele momento em que Davi era ferrenhamente perseguido, poupou por duas vezes a vida de quem lhe perseguia, mas não se calou, antes denunciou os seus desmandos. Não o matou, mas não o deixou sem uma boa repreensão nos moldes da Palavra de Deus!

Portanto, amado “ungido”, não maltrate os profetas que Deus levantou para te corrigir! Antes, agradeça a Deus por Seu amor, manifestado na correção que Ele te dá, cuidando para que não te percas e nem conduzas à perdição o rebanho que Ele mesmo salvou e resgatou com Seu sangue, e pôs em tua mão para que o conduzisses!

Não chame os blogueiros, que são profetas de Deus em defesa da Palavra e da sã doutrina, e tão ungidos quanto você, de endemoninhados ou coisas semelhantes. Se eles estiverem errados, dê testemunho do erro de conformidade com a reta justiça (as Escrituras), e não de conformidade com teus achismos.

Procure agir como Davi, homem segundo o coração de Deus, que reconheceu seu erro. Jamais aja como Acabe ou como Amazias, que intimidaram, retaliaram e feriram os profetas que lhes foram enviados, meros portadores do recado de Deus para suas vidas, a fim de que eles corrigissem seus caminhos e atitudes perante o Senhor.

Não tenho dúvidas que tu és ungido do Senhor. Apenas não admito que esta unção te conceda status de intocabilidade ou imunidade. Você é tão sujeito a erros quanto eu, e tão sujeito à correção. Quando eu errar, sinta-se à vontade de me corrigir à luz da Palavra! E que Deus me conceda a humildade suficiente de reconhecer Sua voz através da tua boca. Mas esta é uma via de mão dupla, "ungido"! Você também é sujeito aos erros, e à mesma correção divina vinda por mim, desde que igualmente à luz da Palavra! 

Sempre que você se desviar do caminho, o Senhor, que te ungiu e te ama, levantará um ungido profeta, seja ele um detentor de dom espiritual, um blogueiro ou uma mula falando com voz humana, para te convencer a retonar ao Caminho e à prática das primeiras obras. Ouça-o, respeite-o, vá às Escrituras para ver se as coisas são assim mesmo (Atos 17:11), e se for, abandone o erro. É para teu bem! Profeta nenhum, caro "ungido", te leva uma mensagem dura desejando teu mal, mas teu arependimento. Não aja com eles como agiu Amazias  ou Acabe. Aja como Davi: reconheça seus erros e arrependa-se!

Quando abrires a tua boca para falar “não toqueis nos meus ungidos”, lembra-te, “ungido”, da parte "b" do versículo. Tua parte e teu dever, mesmo que não queiras te arrepender, é não maltratá-los e reconhecer a unção que está sobre eles!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

GRAÇA E SANTIFICAÇÃO

A salvação é pela GRAÇA. Somente pela graça, e nunca por obras humanas. E não há nada que o homem faça que venha a ser uma "adição" à obra redentora de Cristo.

Mas... Como podemos conciliar tal afirmativa com a orientação aos hebreus que “sem a santificação ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14)? O texto parece sugerir que é necessário haver obras humanas, chamando tais obras de santificação. Será assim mesmo?

Faço questão de repetir: a salvação é pela GRAÇA. Somente pela graça, e nunca por obras humanas. E não há nada que o homem faça que venha a ser uma "adição" à obra redentora de Cristo.

Entretanto, a santificação é o resultado da ação do Espírito Santo sobre nossas vidas, tratando-a para que vivamos de conformidade com o que Cristo viveu (1 Jo 2:6). Entenda: é o resultado da ação do ESPÍRITO SANTO, e não simplesmente a nossa ação. É o Espírito de Deus que nos convence do pecado, e nos conduz a buscar o que é santo. Sem a ação do Espírito, eu JAMAIS me inclinaria a qualquer processo de santificação!

É IMPOSSÍVEL alguém que se achega a Cristo não ter um processo de santificação em sua vida, operado pelo Espírito. Assim, entendo que o princípio ensinado aos hebreus é que os salvos se submeterão à santificação operada pelo Espírito Santo. Os que não se submetem, está claro: não verão o Senhor pois não são dEle e nem se submetem à santificação operada por Ele.

Outro erro comum sobre o assunto é associar SANTIFICAÇÃO com PERFEIÇÃO. E não são, de jeito algum, a mesma coisa. Embora o alvo seja a perfeição, certamente jamais atingiremos tal status diante de Deus enquanto estivermos neste tabernáculo terrestre (a carne). Paulo, escrevendo aos romanos, demonstra muito bem que esta perfeição é inatingível quando desabafa, relatando suas constantes lutas contra a sua carne (Rm 7:15ss). Ao término de sua exposição, ele desabafa: "Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm 7:24), e dá graças a Deus por Jesus Cristo, o único que o justifica e o torna apto a entrar no Reino, apesar de seus pecados carnais.

Pelo que eu conheço da minha carne, me imagino aos 99 anos de idade, em uma cama de hospital, sendo tratado por uma enfermeira. Suponho que se esta mulher for bonita, meus olhos velhos ainda darão uma olhada para as formas de seu corpo! Sim... Infelizmente, é a inclinação maligna que minha carne levará até o último suspiro. Assim, nem na hora de minha morte poderei afirmar que atingi a perfeição, mas sim que passei toda a minha vida me submetendo ao processo de santificação que o Senhor operou em minha carne.

Eis porque o ladrão da cruz, mesmo sem tempo para santificação, entrou no céu. Pelos méritos de Cristo. Pela obra da cruz. Pela GRAÇA. Suponho que o ladrão pregado na cruz, sofrendo dores terríveis, tenha gritado algumas palavras de baixo calão no afã de minimizar a dor... Mas sua entrada no céu não estava condicionada aos seus atos, e sim aos méritos de Cristo e à Sua promessa!

Eis porque homens e mulheres quase mortos, em um leito de UTI, ou em estado terminal, após ouvirem o Evangelho e o entenderem, e se submeterem a Cristo, entrarão no céu. Pelos méritos de Cristo. Pela obra da cruz. Pela GRAÇA.

Não há preço a ser pago por nossa salvação. Cristo não pagou 99% do preço, e nos deixou 1% para pagarmos em vida. Falando sobre a redenção da alma do homem, o salmista nos diz que "a redenção da sua alma é caríssima e seus recursos se esgotariam antes" (Sl 49:8). Cristo, exemplificando o alto valor desta redenção, fixou na parábola dos dois devedores um preço tão alto que nem mesmo em uma vida ininterrupta de trabalhos e economias um homem poderia amealhar tal montante (Mt 18:23ss).

Entreguemo-nos à graça de Deus!! Submetamo-nos à santificação que Ele nos impõe e conduz. Mas JAMAIS percamos a visão de uma coisa: a salvação é pela GRAÇA DE DEUS.

SOLA GRATIA!!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

CHAMADOS À MATURIDADE

Tenho me divertido, e muito, com meus netos Samuel e Guilherme, vendo suas brincadeiras de criança, suas gargalhadas e outras atitudes infantis destes dois lindos bebês. O Samuel tem um pouco mais de um ano, e o Guilherme ainda vai completar seu primeiro aninho. Portanto, é natural que estejam ainda engatinhando e arriscando os primeiros e desengonçados passos, forçando a língua para falarem as primeiras palavras e agindo naturalmente como crianças de sua idade... 

Mas o fato é que eu não estaria nem um pouco encantado se eles tivessem cinco anos e o mesmo comportamento de hoje! 

As crianças crescem, e com este crescimento vem um desenvolvimento, sadio e sistemático, de acordo com a idade.  O próprio Senhor Jesus passou por este processo, e a Escritura relata que “crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens” (Lc 2:52). Assim sendo, se o Samuel tivesse ainda o mesmo comportamento de Guilherme (e olha que a diferença entre eles é de poucos meses!) diríamos que alguma coisa estava errada em seu desenvolvimento, e procuraríamos imediatamente o pediatra para providências urgentes.

O mesmo se aplica à nossa vida cristã. Quando nascemos de novo, em experiência pessoal e indelével com o Senhor Jesus, somos crianças. Precisamos aprender, crescer na graça e no conhecimento de Deus.

É natural que os novos convertidos (os neófitos, “folhas novas”) tenham atitudes infantis, mas completamente antinatural que permaneçam com tais atitudes por anos! E muito mais antinatural ainda é vermos pastores que se alegram com tal estagnação! Como pais, os pastores devem se alegrar com o desenvolvimento e se preocupar com qualquer retardo no aprendizado, buscando urgente e prontamente a solução para tal problema. Mas infelizmente não é isso que vemos.

Paulo apóstolo, escrevendo à igreja em Corinto, diz aos irmãos: “não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com manjar, porque ainda não podíeis, nem, tão-pouco, ainda agora podeis, porque ainda sois carnais...” (1 Co 3:1-3). Mais tarde ele complementa, mostrando qual deveria ser o padrão para uma vida cristã saudável: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino” (1 Co 13:11).

O escritor da epístola aos hebreus, por sua vez, afirma a seus interlocutores: “ ...porquanto vos fizestes negligentes para ouvir. Porque, devendo já ser mestres, pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus, e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento; Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do hábito, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” (Hb 5:11-14).

Causa assombro que na igreja, mormente nos dias atuais, encontremos crentes com dois, três, cinco, dez anos de vida cristã, mas que ainda permanecem com atitudes de criança! Como já disse, é natural que nos primeiros meses da caminhada estas atitudes sejam visíveis, mas é inconcebível que após dois anos de Evangelho alguém continue agindo, pensando, falando como menino! Parece que a prioridade de certos líderes é deixá-los na ignorância mesmo, desestimulando a leitura das Escrituras e a busca por conhecimento teológico, enchendo-os de fábulas e ensinando-lhes "gírias gospel" para deixá-los bem meninos, agindo de forma ridícula e imatura!

Causa igualmente assombro vermos igrejas com vários anos, e as mesmas atitudes de criança! Sim, pois o fenômeno não é só do crente, mas da Congregação! Há igrejas com tanta meninice que torna quase impossível que um crente maduro participe de um de seus cultos!

Há um dialeto infantil dentro das Igrejas. Assim como as crianças chamam o gato de "miau" e o cãozinho de "au-au", os crentes imaturos mantêm um dialeto que preocupa! Os homens, por exemplo, eles insistem em chamá-los de "varão", embora a palavra tenha caído em desuso. Mulheres, são "varoas". Servos de Deus, podem e devem ser chamados de "Vasos". Dá pra fazer um dicionário com o dialeto gospel-afro-judaico! A maturidade nunca chega, não é ensinada nem buscada!

Paulo tinha muito a falar com os coríntios, muito a ensiná-los, mas sabia que não podia, pois os mesmos eram carnais e infantis, e não compreenderiam os seus ensinos! O escritor aos hebreus reclama de ter que repetir ensinos básicos, rudimentares, ao invés de dispensar um ensinamento mais aprofundado. Os mesmos sinais podem ser vistos nos nossos dias. Muitas vezes, queremos dar um alimento mais sólido à igreja, e percebemos que o mesmo não é bem assimilado. Outras vezes, ensinamos coisas básicas (mas que vêm sido ensinadas de forma errada por anos, décadas) mas as pessoas insistem em permanecer no erro e desprezar a verdade!

É verdade que o Senhor Jesus nos ensina que é das crianças o Reino dos céus (Mt 19:14), e que “se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mt 18:3), mas observamos também que, ainda falando aos coríntios, Paulo apóstolo admoesta: “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento” (1 Co 14:20). Uma leitura mais cuidadosa do texto de Mateus 18 leva-nos à conclusão de que nunca foi intenção do Senhor Jesus ensinar que precisamos ser IMATUROS, e sim HUMILDES COMO CRIANÇAS (Mt 18:4). Mais uma vez, a simples leitura do contexto explica-nos o versículo seguinte! Mas, infelizmente, este é um dos piores e maiores sinais da imaturidade de nossa geração: nem ler a Bíblia sabe!! Nem a analisar um contexto foram ensinados!!

Assim, um dos maiores desafios da igreja e de seus líderes é desenvolver nas ovelhas uma mentalidade de constante desenvolvimento, crescimento, amadurecimento. Manter as ovelhas imaturas e dependentes pode ser uma forma de deixá-las escravizadas ao "sistema". Entretanto, ensinar as ovelhas e levá-las à maturidade ainda é o melhor caminho. Afinal, ovelha madura e bem alimentada JAMAIS procurará comida seca e sem substância em outras pastagens! 

Fonte da imagem: http://pastormelqui.blogspot.com.br/2012/10/por-que-alguns-adultos-insistem-em-ter.html

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

SUA IGREJA ME ACEITA?


Tá rolando uma série de imagens nas redes sociais com a legenda "Sua Igreja me aceita?" O intuito, parece ser chocar, ou mostrar a intolerância da Igreja com os pecadores de um modo geral. Parece-nos transmitir a mensagem que a Igreja deve aceitar a todos, inclusive aqueles que querem permanecer do mesmo jeito, sem qualquer mudança de vida e/ou conduta!

As citadas imagens precisam, obviamente, ser comparadas, por exemplo, com o jovem rico, que Jesus o aceitou a ponto de a Escritura relatar que Ele “o amou” (Mc 10:21), mas O JOVEM não aceitou as condições impostas pelo próprio Jesus.

Desculpem, mas aceitação de pecadores sem arrependimento NÃO É o papel da Igreja! A Igreja deve estar aberta a aceitar os piores pecadores (e eu estou entre estes!) que, arrependidos, estejam dispostos a confessar e abandonar seus pecados, mas não precisa aceitar NENHUM que não estejam dispostos a passar pelos portais do arrependimento.

A Bíblia relata TRÊS candidatos a discípulos de Jesus, e pelo relato observamos que não basta somente querer segui-lO:

E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores. E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá enterrar meu pai. Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém, tu, vai e anuncia o reino de Deus. Disse, também, outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa. E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9:57-62). Desculpem, mas não é só chegar e dizer "quero ser um seguidor". Infelizmente, o texto deixa claro que há prerrequisitos, impostos não pela Igreja, mas pelo próprio Senhor Jesus!

"Sua Igreja me aceita?" -- Quando a multidão perguntou algo parecido a João o batista, obteve a seguinte resposta: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi pois, frutos dignos de arrependimento; E não presumais de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão. E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.” (Mt 3:7-10). 

"Sua Igreja me aceita?" -- Quando a mulher adúltera fez, de forma indireta, esta pergunta a Jesus, Ele respondeu: “Eu não te condeno; vai-te, e não peques mais.” (Jo 8:11). 

"Sua Igreja me aceita?" -- Quando a multidão, estupefata ao ver os sinais do dia de Pentecostes, perguntou algo parecido a Pedro e aos apóstolos, obteve a seguinte resposta: “Arrependei-vos...” (At 2:38). 

Estes três exemplos devem servir de resposta às perguntas das imagens a que me refiro!!

A Igreja não é lugar de pecadores praticantes. É lugar de pecadores falhos, que lutam diuturnamente contra sua natureza carnal, arrependidos e dispostos a seguir a Cristo! Se o objetivo de alguém é seguir a Cristo sem arrependimento, permanecendo na prática dos pecados dos quais deveria se envergonhar e se arrepender, sinto muito. Muito provavelmente a Igreja, seu pastor e ovelhas podem até te receber, mas o Senhor da Igreja certamente não!

Entretanto, a Igreja deve estar, como Cristo, de braços abertos e acolhedores a todo pecador, por mais bizarro que seja, por "maiores" que sejam os seus pecados, por mais sujo que seja o seu passado. Afinal, como bem disse Jesus, “Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, AO ARREPENDIMENTO.” (Mt 9:12-13). 

dizia [Jesus] a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lc 9:23)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

APRENDENDO A DETERMINAR A SUA VITÓRIA


A vida cristã é dinâmica. Diariamente crescemos de fé em fé, e precisamos dar passos importantes para que este crescimento ocorra de forma saudável. E estes passos são dados quando determinamos coisas para nossa vida e exercemos a nossa fé em relação a estes aspectos da vida cristã.

Alguém poderá dizer: não há na Bíblia qualquer menção de que o crente deva determinar coisas em sua vida; isto é mais uma falácia da “teologia da prosperidade, etc”. Permita-me discordar. As Escrituras mostram, implicitamente, a necessidade de o crente tomar certas atitudes e dar certas ordens a fim de que possamos alcançar vitórias em vários aspectos da nossa vida. O fato inegável, presente no espírito das Escrituras, é que o crente precisa aprender a DETERMINAR para poder alcançar bênçãos e vitórias em sua vida. Como pessoas chamadas a ser cabeça, e não cauda, não podemos e nem devemos simplesmente esperar as coisas acontecerem, ou as bênçãos caírem do céu. Precisamos DETERMINAR a fim de que realmente as bênçãos nos alcancem e nos tragam a vitória que tanto precisamos.

Assim, apresento alguns aspectos da vida cristã em que precisamos DETERMINAR para alcançarmos a nossa vitória.

Primeiramente, DETERMINE que a partir de agora você vai se esforçar para ser um cristão melhor. A partir de hoje, você vai determinar, exercer a sua fé e se esforçar ao máximo no sentido de orar mais, jejuar mais, ler mais a Bíblia. Determine quanto tempo e quantas vezes por dia você vai orar. Determine quantos minutos por dia você vai ler a Palavra. Determine a frequência semanal que você vai jejuar. Determine um horário para suas devocionais diárias. Determine, e lute para cumprir suas próprias determinações!

DETERMINE que de agora em diante irá frequentar mais os cultos regulares de sua Igreja, principalmente os cultos de oração, doutrina e Escola Bíblica. São os passos básicos para que você aprenda mais acerca de Deus e da sã doutrina. Determine neste aspecto que irá se esforçar mais a chegar à Igreja antes do início do culto (afinal, você não faz isso no seu trabalho todos os dias?) e que vai participar dos cultos com reverência e temor.

DETERMINE também que a partir de agora você vai participar mais ativamente das atividades da sua Igreja, como evangelismo, trabalho social etc, e vai se engajar em algum departamento da Igreja, trabalhando não para a liderança, mas para Deus.

DETERMINE acerca daquelas áreas de maior fraqueza em sua vida: inclinações para a carne, pornografias, mentiras, enganos, roubos, adultérios etc. DETERMINE que você irá combater ferrenhamente contra estes pecados, se preciso até o sangue (Hb 12:4).

DETERMINE que você se tornará mais sensível às necessidades de seus irmãos. Passe a ajudar ao próximo em suas necessidades financeiras, não se afaste do pobre e faça o que estiver ao seu alcance para saciar sua fome, pois fomos ensinados pelo Senhor Jesus que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (At 20:35). Procure fazer isso nos moldes ensinados pelo Senhor Jesus: “quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mt 6:1-4).

DETERMINE que você se tornará mais liberal nas ofertas para a sua Igreja, ofertando com fé, alegria e disposição, contribuindo com missionários que têm compromisso com a pregação do verdadeiro Evangelho.

DETERMINE que buscarás o controle da tua língua, de sorte que doravante vigiarás tua boca para não falar mal do teu próximo, nem difamá-lo, e que também não emprestarás teus lábios para propagar qualquer doutrina falsa, mas que permanecerás fiel ao são Evangelho da graça de Deus.

DETERMINE que você moldará seu caráter, tomando como base o caráter de Deus. Se você roubava, DETERMINE que de hoje em diante não mais roubará. Faça o mesmo em relação às fornicações, adultérios, fraudes, mentiras etc. DETERMINE que, se aparecer algum dinheiro misterioso em sua conta bancária, você procurará o gerente de seu banco e devolverá o que não é seu. DETERMINE que se você encontrar uma carteira na rua, devolverá ao legítimo dono com tudo o que nela esteja, inclusive o dinheiro.

DETERMINE que você se tornará um cidadão cumpridor de seus deveres e obrigações. Determine que não mais sonegará impostos. Determine que pagará as suas contas em dia, e não mais dará calotes no comércio, zelando assim pelo nome de Cristão que carregas. 

Agora, depois de tantas e necessárias DETERMINAÇÕES, você vai compreender que a determinação cristã tem seus limites. Você tem poder para determinar coisas em sua vida, novos alvos, novos rumos, desde que estejam dentro de sua alçada, desde que você tenha o poder de fazer algo para que sua determinação possa ser alcançada com seu esforço. Entretanto, qualquer determinação para que Deus realize seus desejos de prosperidade, cura, vitória, sustento etc, não estão em seu poder!

O ato de determinar coisas para a nossa vida é bíblico. Um dos maiores exemplos disto é o episódio da visita do Senhor Jesus à casa de Zaqueu. No ápice desta visita, o dono da casa determinou coisas profundas para a sua própria vida, e que com certeza o transformaram de forma profunda, de dentro para fora: “Senhor, eis que dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado” (Lc 19:8).

O problema é que a famigerada e antibíblica “teologia da prosperidade” desvirtuou completamente o sentido das verdadeiras determinações que o homem precisa fazer. O que se observa é que as pessoas estão muito mais interessadas em determinar coisas físicas e materiais para si mesmas, de forma egoísta e mesquinha, do que determinar coisas realmente importantes, coisas que refletirão em sua vida e seu caráter, moldando-o como legítimo cidadão do reino de Deus.

Existem dois tipos de “determinações”: as que estão dentro de nossa alçada e autoridade e as que não estão. As que nos dizem respeito são aquelas que englobam a mudança de vida. As acima de nossa alçada, como, por exemplo, determinar coisas para Deus, exigindo que Ele cumpra nossos caprichos, mormente os financeiros, não são bíblicas e são, na verdade, placebos — pílulas de farinha! Deus não se compromete com a realização de nenhum dos nossos pedidos que estejam fora da Sua vontade, e muito menos com ordens ufanas e antibíblicas. Deus, o Eterno Criador, não se submete aos nossos caprichos e nem se obriga a atender determinações tolas. Ele é o Oleiro, e nós somos apenas barro em suas mãos! Tentar-lhe dar ordens, determinar coisas para Ele satisfazer obrigatoriamente vai de encontro à mensagem das Escrituras, como bem afirmou Isaías, o profeta messiânico: Vós tudo perverteis! Como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Não me fez; e o vaso formado dissesse do seu oleiro: Nada sabe” (Is 29:16), e “Ai daquele que contende com o seu Criador! O caco, entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?” (Is 45:9). Paulo, apóstolo aos gentios, afirma: “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” (Rm 9:18).

Imaginem um soldado raso dando ordens a um general! Eis a mais adequada comparação a ser feita em relação ao crente adepto da “teologia da prosperidade” dando ordens a Deus.

Mas o fato inegável é que a verdadeira “Doutrina da Determinação” é bíblica. Somos chamados a negarmo-nos a nós mesmos e tomarmos a nossa cruz e seguir o Senhor (Mt 16:24), e para isto é necessária MUITA DETERMINAÇÃO! Mas estas determinações se limitam àquilo que podemos lutar para mudarmos nosso caráter, nossas atitudes e nossas ações a fim de nos tornamos cristãos melhores, mais zelosos, mais fieis. O que disso passar, é maligno, e se enquadra perfeitamente nas palavras de Tiago, irmão do Senhor e pastor da Igreja em Jerusalém: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg 4:3).

Antes de erguer sua voz de forma insolente, prepotente e desrespeitosa ao Criador para dar-lhe ordens e determinações, lembra de determinar primeiro a mudança para tua própria vida, e lutar em prol destas determinações! Depois disto, entenderás por que Cristo nos ensinou com o próprio exemplo acerca de fazermos a vontade de Deus, e não de Deus fazer Se submeter às nossas vontades egoístas (Mt 6:10; Mt 26:39, 42)!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

UNÇÃO COM ÓLEO

"Está ALGUÉM entre vós DOENTE? CHAME os PRESBÍTEROS da igreja, e OREM sobre ele, ungindo-o com azeite, em nome do Senhor; E A ORAÇÃO DA FÉ salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados" (Tg 5:14-15).

Estes dias , um dos debates mais acalorados que vi em uma Comunidade de rede social foi a respeito da unção com óleo. Esta prática se tornou muito comum nos meios pentecostais e neopentecostais, de sorte que se tornou costume ungir a todos no culto, ou mesmo nas reuniões. Ungem-se as mãos, os pés, a cabeça, partes específicas do corpo aonde se deseja "abençoar" ou "quebrar maldições". Outros, derramam LITROS de óleo sobre si mesmos ou sobre outras pessoas, e até sobre objetos como CDs e DVDs, na ânsia de que esta "unção" faça com que vendam mais... Há muito tempo a coisa saiu da esfera bíblica!

Permitam-me expor minha opinião a respeito...


O texto de Tiago 5:14-15 é o ÚNICO TEXTO prescritivo no Novo Testamento, que nos manda ungir alguém. A boa hermenêutica ensina que não se deve basear doutrina em texto isolado. Portanto, muito cuidado em relação à unção praticada indiscriminadamente por aí (já soube de pessoas que ungem imóveis, veículos, chaves, e até os animais domésticos!!), fora do padrão prescrito nas Escrituras. Outro texto, presente em Marcos 6:13, mostra que os discípulos também ungiam os enfermos, curando-os, mas não é texto prescritivo, e sim narrativo. Entretanto, não podemos simplesmente ignorar que a Bíblia prescreve a unção com óleo, e devemos buscar na Escritura o padrão deixado por Deus para esta prática.

A primeira coisa que precisamos entender sobre o assunto é que a "doutrina das unções" é veterotestamentária, e a maioria das pessoas que pratica tal "unção" o faz igualmente de acordo com os princípios do Antigo Testamento, e não do Novo, ignorando que vivemos de conformidade com a Nova Aliança, e não com a Antiga. 

Se observarmos bem, perceberemos que a revelação progressiva deixa muito claro que Deus foi ensinando, com o passar das alianças estabelecidas por Ele com Seu povo, como esta unção deveria ser ministrada. Antes da lei, podemos ver pessoas, como Jacó, derramando óleo sobre objetos -- mais precisamente uma pedra, consagrando o lugar ao Senhor (Gn 28:18). Já na Lei de Moisés, vemos claramente que o azeite não mais era derramado sobre objetos, EXCETO na consagração de objetos que seriam usados no culto do Templo, e ungia os sacerdotes, como sinal da descida do Espírito Santo sobre suas vidas. Inclusive, é importante observar que a fabricação e o uso do óleo de unção foi PROIBIDA POR DEUS, sob pena de morte na desobediência, como está escrito: "E falarás aos filhos de Israel, dizendo: Este me será o azeite da santa unção, nas vossas gerações. Não se ungirá com ele a carne do homem, nem fareis outro semelhante, conforme à sua composição: santo é, e será santo para vós. O homem que compuser tal perfume como este, ou que, dele, puser sobre um estranho, será extirpado dos seus povos" (Ex 30:31-33).

Com o advento da monarquia israelita, o azeite passou a ser derramado também sobre alguns reis, simbolizando igualmente a descida do Espírito Santo sobre eles. Observe-se que quando Davi foi ungido, o Espírito passou a habitar nele, ao passo que abandonou Saul (1 Sm 16:13-14). Entretanto, é bom lembrar que a iniciativa da unção nunca partia do profeta, mas de Deus! Vejam que o profeta Samuel NÃO QUERIA ungir Davi, mas só o fez porque Deus ordenou (1 Sm 16:1). Outro fato que não pode ser desprezado é que pelo relato bíblico poucos reis de Israel foram ungidos com óleo. Saul, Davi e Jeú são alguns que a Palavra mostra que foram ungidos. Outros, não se menciona nenhuma unção.


Outra coisa que não vemos na Bíblia, em lugar nenhum, é a AUTO-UNÇÃO, que muitos praticam em nossos dias, mas não tem qualquer amparo escriturístico! E muito menos pedir ou mandar que outros nos unjam, exceto no caso de unção para enfermos.

Na Nova Aliança em Cristo, o Espírito Santo foi derramado sobre toda a Igreja no dia de Pentecostes. A Lei se cumpriu integralmente em Cristo, de sorte que o SIMBOLISMO das unções veterotestamentárias (a unção com azeite para recebimento do Espírito) se materializou no Senhor Jesus, não mais necessitando de unção com óleo. Quem se achega a Cristo por meio do novo nascimento recebe, inexoravelmente, o Espírito Santo, sem exceção! Mesmo que não haja sinais, ou manifestação de dons, o Espírito é recebido no ato do Novo Nascimento. 

Podemos afirmar, à luz dos textos bíblicos da Nova Aliança, que:

1) O Novo Testamento não prescreve unção com óleo na consagração de obreiros, diáconos ou presbíteros (pastores, evangelistas, missionários etc). Os mesmos são consagrados com IMPOSIÇÃO DE MÃOS (At 6:6; 13:3; 1 Tm 4:14). 

2) O Novo Testamento não prescreve unção com óleo para "batismo" do Espírito Santo. No livro de Atos, vemos casos aonde os apóstolos impunham as mãos, e os crentes recebiam o DOM do Espírito Santo (At 19:6). 

3) O Novo Testamento não prescreve unção com óleo para se expulsar demônios! Sim, há gente que faz isso! O exorcismo era feito unicamente com a voz de ordem para que o espírito mau saia do corpo do ser humano.

4) O Novo Testamento não prescreve a unção para consagrar objetos, imóveis etc. Não há, no NT, um único texto que sequer relate um objeto sendo "ungido".

5) Não há, em nenhum texto do Novo Testamento, a orientação de que TODOS os participantes de uma reunião da Igreja devam ser ungidos. O único texto que poderia deixar isso transparecer é o relato da mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus (Lc 7:44-46), quando Jesus lançou no rosto de Simão que ele não lhe ungiu a cabeça com azeite. Mas se trata de um texto que reflete um costume. Ele não prescreve uma norma doutrinária para a Igreja, mas um costume judaico de higiene e respeito ao se receber uma visita. Os que acham que este texto justifica que todas as pessoas sejam ungidas na entrada do culto (ou mesmo durante o culto), devem também oferecer A TODOS água para lavar os pés e beijar, um por um, com ósculo santo, pois Jesus também reclamou a ausência de todas estas coisas!

Mas Tiago, irmão do Senhor, menciona a UNÇÃO DOS ENFERMOS. Sobre isso, falamos:

Como já dissemos anteriormente, repetimos: trata-se de TEXTO ÚNICO, isolado, sobre o assunto, e por isso deve ser lido e entendido com cuidado e critério, assim como 1 Co 15:29, texto ÚNICO e ISOLADO que fala sobre BATISMO PELOS MORTOS, e que foi tomado por algumas seitas como justificativa para batizar por procuração uma pessoa morta, não pode ser usado para definir uma doutrina de batismo pelos mortos.

Sigamos, passo a passo, o que diz o texto de Tiago, analisando as palavras gregas nele presentes:

a) “Está ALGUÉM?...” (τις tis pronome indefinido enclítico; alguém, uma certa pessoa) - O uso da unção com óleo é para pessoas, e não para objetos! O próprio fato deste ALGUÉM estar DOENTE demonstra isso, pois objetos não adoecem...

b) “Está ALGUÉM entre vós DOENTE?...” (ασθενεω astheneo - 1) ser fraco, débil, estar sem força, sem energia -2) estar debilitado, doente) - O uso da unção com óleo é para pessoas DOENTES, para que eles recebam CURA. E não para que sejam consagrados, separados, santificados, cheios do Espírito, abençoados etc. É para DOENTES. Se você não está doente, mas quer ser ungido para alcançar vitória, para receber bênçãos, afastar mau olhado gospel etc, não é por aí... A unção é só para doentes!

c) “Está ALGUÉM entre vós DOENTE? CHAME...” (προσκαλεομαι proskaleomai - 1) convocar 2) chamar para si 3) ordenar a vir) - O "alguém" que está doente é quem deve CHAMAR, ou alguém que o represente. Deve ser um ato voluntário, manifesto pelo doente ou oir pessoas ligadas a ele, como familiares diretos ou amigos, CHAMANDO alguém.

d) O ato de "chamar" dá a entender que tal ritual não deve ser feito na Igreja, e sim na casa do enfermo, provavelmente nos casos em que a pessoa esteja impossibilitada de ir à casa de reunião da Igreja. Entretanto, os doentes que puderem ir à casa de reunião podem, creio eu, também solicitar a unção na Igreja...

e) “Está ALGUÉM entre vós DOENTE? CHAME os PRESBÍTEROS...” (πρεσβυτερος presbuteros 1) ancião, de idade, 1a) líder de dois povos 1b) avançado na vida, ancião, sênior 1b1) antepassado 2) designativo de posto ou ofício)  - São os PRESBÍTEROS, e não os diáconos, e não os dirigentes do círculo de oração, e não o presidente da Mocidade, e não os profetas, e não os "vasos", quem devem ser chamados, quem devem promover tal unção com óleo... SÃO OS PRESBÍTEROS. A visita de um presbítero a uma casa não traz apenas a orarção e a unção, mas traz a pregação da Palavra de Deus, que pode alcançar as pessoas que precisam ouvi-la para serem salvas!

f) “Está ALGUÉM entre vós DOENTE? CHAME os PRESBÍTEROS da igreja, e OREM...” (προσευχομαι proseuchomai 1) oferecer orações, orar) - Deve haver oração. Não é a unção que é o fundamental, mas a ORAÇÃO. Lamentavelmente, um famoso “telepastor” certa vez ofereceu à igreja um frasquinho de óleo que, segundo ele, bastava ungir o doente e ele seria curado, SEM ORAÇÃO. Não é isso que a Bíblia ensina...

g) “...E A ORAÇÃO DA FÉ salvará o doente, e o Senhor o levantará...” - Não é o óleo, com seus poderes mágicos, místicos, especiais... É A ORAÇÃO quem traz a cura. E não é a pessoa que ora quem o levanta, através de seus poderes e dons, mas O SENHOR.

h) Coloco aqui uma situação, para análise, procurando demonstrar que o mais importante é a oração, e não a unção com óleo. Imagine que você está passando na rua, e alguém te veja, te reconheça como crente, e te peça para entrar em sua casa, pois um parente está doente. Você bate nos bolsos, e vê que esqueceu o frasquinho de óleo... E aí? O que é mais importante: o óleo, ou a sua oração?

i) Finalmente, NÃO EXISTE ÓLEO UNGIDO. Para haver óleo ungido, seria necessário pegar um óleo não-ungido, e ungi-lo com óleo ungido, derramando óleo ungido sobre o óleo não-ungido, tornando o óleo não ungido em óleo ungido pelo contato com óleo ungido... Ai, que confusão!! O máximo que pode haver é óleo consagrado, sobre o qual oramos, e simplesmente o separamos para uso exclusivo na unção dos enfermos. E este óleo não é nenhuma poção mágica para curar pessoas. Não há poder especial nele. Na ausência do óleo que foi consagrado, podemos usar até mesmo um pouco de azeite que temos em casa, e que normalmente usamos para frituras ou tempero de saladas...

Isto posto, se você tem feito a coisa errada este tempo todo, nunca é tarde para aprender pelas Escrituras, compreender os erros, dar meia volta e tornar à prática das primeiras obras (Ap 2:5)!